sexta-feira, 6 de maio de 2011

Questões sobre Bharathanatyam

Qual a importância da tradição e da linhagem na dança indiana: o que ela representa? Porque se segue uma linhagem?

Como é uma dança tradicional, cujo ensino vem se perpetuando por séculos, no Bharatanatyam se dá extrema importância a linhagem. Essa sucessão existe há séculos para estabelecer a autenticidade do conhecimento inadulterado. Inclusive existem diferentes estilos oriundos de diversas partes do sul da Índia. Graças a esse sistema que a dança se perpetuou por tanto tempo apesar de tantas restrições históricas. Cabe ao estudante conhecer e respeitar essa linhagem, mantendo o estilo e a essência dos ensinamentos, para que essa sucessão não  perca nem enfraqueça a conexão professor-discípulo, criando um relacionamento de gratidão pelo aprendizado dessa arte.

Qualificação: o que exigir de um candidato a professor de bharatanatyam no ocidente? Que responsabilidade tem as instituições ao contratar um professor de dança indiana?

Uma das características mais intrínsecas do Bhararanatyam é a complexidade da dança. Os passos, os ritmos, as expressões, se unem para criar uma das artes mais completas conhecidas pela humanidade. Muitos inclusive fazem uma comparação com o ballet no ocidente, devido a quantidade de estudo e dedicação ao qual ambas danças requerem. Assim como o ballet, o Bhararanatyam possui diferentes posturas e passos complexos, padrões estéticos, e um repertório bastante variado. A partir disso, espera-se do dançarino de Bharatanatyam um certo padrão para fazer uma apresentação e um padrão ainda mais elevado para ensinar, especialmente um nível de proficiência solo, ou seja, individual.
No ocidente, há uma grande falta de conhecimento sobre essas artes milenares, e isso é bastante marcante noBrasil, provavelmente devido a falta de profissionais qualificados e a propagação de invenções que vão pelo nome de “dança indiana”. O interesse da mídia é ainda pequeno, e muitas vezes essa mesma mídia até mesmo ajuda a propagar certas concepções erradas. Na Índia, para que um dançarino se torne professor, espera-se que ele pelo menos tenha completado alguns anos de aprendizado e várias apresentações solo, incluindo o famoso “Arangetram”, ou recital solo de estréia aonde se apresenta o dançarino para a sociedade.  
            Todas as pessoas que estiverem interessadas em contratar um professor de Bharatanatyam devem no mínimo exigir:
1. Treinamento extenso na dança, dos passos básicos e complexos;
2. Experiência de dança solo e proficiência tanto na parte técnica quanto na parte expressiva;
3. Repertório de coreografias clássicas;
4. Conhecimento dos termos técnicos;
5. Conhecimento de música carnática;
6. Atender frequentemente aulas de continuidade e aperfeiçoamento;
7. Autorização para ensinar de uma professora que esteja nos mesmos parâmetros de experiência e conhecimento.
            Todos esses itens tem sua importância na qualificação do profissional de Bharatanatyam. Todos que estejam interessados em propagar essa dança da maneira correta e com a reputação de sua instituição de ensino devem procurar  esses mínimos requisitos de qualidade e respeito. Todas as artes e ciências milenares da Índia dão grande ênfase ao Sadhana, ou seja, a prática que nos eleva a perfeição. É algo que requer paciência e dedicação.

Bharatanatyam é uma dança clássica ou folclorica?

            Infelizmente, a aceitação do Bharatanatyam no Brasil é ainda muito limitada, provavelmente porque o conhecimento da cultura indiana é limitado. Mas o Bharatanatyam na Índia é considerado a dança clássica mais antiga e tradicional. Ela tem base em escrituras e tem técnicas pré-estabelecidas, e isso dá o status de clássica que ela merece. Mas um dos maiores desafios que temos aqui no Brasil, ao nos inscrevermos em festivais de dança, é colocar o Bharatanatyam em uma categoria como dança popular ou dança folclórica, o que é um grande erro. Se a dança é considerada clássica no país de origem, porque não pode ser considerada clássica aqui? Temos que pensar em nós mesmos, dançarinos clássicos, como representantes da cultura indiana, tudo isso conta no processo de valorização da dança. Todos os aspectos da dança como a música, os passos, os gestos, as posturas, as roupas e ornamentos, até a maquiagem e o palco, têm um significado muito importante, e devem ser honrados como tal. Cada um deve fazer sua parte com consciência, saber seus limites e trabalhar dentro deles, sem nunca se acomodar e parar de aprender e evoluir.
            Acredito que cada bailarino que realmente tem amor a seu estilo de dança clássica, deva estudar e praticar para aprimorar sua técnica, de modo que a dança seja realmente respeitada como clássica. Se uma pessoa admira a dança, mas a apresenta de maneira inadequada, causa grande desserviço à arte e aos dançarinos dedicados, muitas vezes sem ter idéia do impacto que essa ação vai ter. E se essa pessoa não quer se aprofundar no estudo do clássico, ou quer inventar uma dança livre inspirada na dança indiana, então que dê outro nome para a dança, não a chame de Bharatanatyam, Odissi, Kathak, etc. Até mesmo dentro do nosso meio, muitas vezes quem não faz "fusões" é julgado como esnobe, careta, limitado. No Brasil há um hábito muito forte de se conformar com o pouco, com o medíocre, mas se existe uma lição que a dança nos ensina é a de superação. Nunca devemos nos acomodar e sim sempre continuar aprendendo e evoluindo. Com certeza temos que definir nosso estilo de acordo com a nossa personalidade, faz parte da nossa evolução, mas se tratando de dança clássica, temos que ter os devidos cuidados. Acredito que podemos, até certo ponto, eu não diria “modificar” que é mais extremo, mas interpretar a dança de maneira que tenha a ver com a nossa experiência e isso é o que dá à dança o aspecto artístico, já que nenhum bailarino dança igual a outro, mas como artistas nos é necessário muitos anos de dedicação e treino, para que possamos, com segurança, expressar nossa criatividade sem desrespeitar a tradição. Dessa maneira, encontramos um ponto de equilíbrio entre nossa percepção individual e o padrão tradicional.

                                                                 Autora: Krishna Sharana

   Krishna Sharana estuda Bharathanatym desde 1996. Em 2005, morou na India para se aperfeiçoar na dança e desde então retorna anualmente para estudos avançados. Em março de 2011 completou seu Arangetram em Bangalore, no estado de Karnataka.

Nenhum comentário:

Postar um comentário