quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Bharata Natyam X Ballet Clássico

O homem começou a dançar na pré-história para expressar-se, comunicar-se com sua tribo e com os Deuses; pela exuberância física; para a fertilidade da terra e do homem; em nascimentos, casamentos e falecimentos; para pedir Sol ou chuva. A dança era sinônimo de religião, e a religião sinônimo de vida; e estes davam sentido aos movimentos humanos e significados a sua expressão. Durante anos o homem foi codificando e decodificando estes movimentos de acordo com suas crenças, necessidades e habilidades; e assim as diferentes danças surgiram em cada canto do mundo; cada qual com sua particularidade (BAIAK, 2007).
Na Índia, há 5000 anos, segundo Sarabhai (2007), a dança clássica surgiu como meio de comunicação entre os humanos e os Deuses; revelando valores e crenças. Esta dança se desenvolveu de acordo com cada região da Índia, resultando em 7 estilos clássicos, sendo o Bharata natyam o mais antigo.
A dança passou dos templos para os teatros, da Índia para o mundo; sofrendo modificações em sua estrutura e na vida de seus bailarinos (ANDRADE, 2007).
Segundo Kothari (2000) uma das pessoas mais importantes na recuperação deste estilo de dança após o reinado britânico foi Rukmini Devi, que antes de iniciar seus estudos na dança indiana, fez ballet clássico sobre os cuidados de Anna Pavlova, grande bailarina clássica, que se inspirou na cultura indiana e japonesa para suas produções.

        
Anna Pavlova (http://artdecoblog.blogspot.com) Rukmini Devi (mahamediaonline.com)

Foi na Renascença, quando a burguesia obteve novos valores, que o ballet clássico começou sua trajetória no mundo da dança para mostrar toda glória, luxo e poder  através de apresentações com temas sobre príncipes e Deuses dentro dos próprios castelos e palácios. Graças ao incentivo de reis e rainhas, como Catarina de Médices e Luiz XIV, o ballet  foi ganhando força perante a sociedade e teve seu apogeu de desenvolvimento nos séculos XVIII e XIX na França (PORTINARI, 1989). Na mesma época em que a Índia era invadida pelos ingleses e pelos franceses.

      
http://balletforever.zip.net/                                    http://www.flickriver.com

Segundo Soneji (2010) depois da primeira apresentação de dança indiana na Europa, em 1838, vários libretistas escreveram óperas e ballets com temas indianos; pois as dançarinas indianas encantaram o público europeu, assim como deixaram fascinadas as principais bailarinas francesas da época, Marie Taglioni e Fanny Elssler. O autor também cita que a Kalakshetra, academia internacional de artes fundada por Rukmini Devi, incluía aulas de ballet clássico como parte de seu treinamento de bharata natyam.
A dança clássica indiana e a européia surgiram em países e em épocas diferentes, mas estas duas técnicas possivelmente se encontraram quando o ballet clássico foi codificado e o bharata natyam reformulado. Para Fischer (1959) a arte reflete a capacidade do homem de associar e circular experiências e idéias. Por isto, as semelhanças entre estas duas danças pode ser o resultado do “encontro” de duas sociedades distintas. 
As evidências históricas apontam para uma possível relação entre a dança clássica indiana bharata natyam e o ballet clássico. Mas, existem poucos estudos científicos sobre este tema. Assim, como a dança possui poucas pesquisas, no Brasil, onde ela ainda é pouco reconhecida como uma profissão e como uma área de conhecimento. Um exemplo desta realidade, está nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), onde a arte, incluíndo a dança, passou a fazer parte da educação, tornando-se uma área de conhecimento, somente em 1997 (MARQUES, 1999).
Segundo Mauss (1974), a técnica é uma tradição que muda de acordo com cada sociedade e época; tendo diversos meios para diversos fins. Por isso, temos várias técnicas no mundo, cada indivíduo, cada sociedade possui uma cultura e uma história diferente da outra.

    
http://www.taringa.net                                        http://2nilssons.com

O ballet clássico e o bharata natyam podem ser julgados por reconhecer critérios e padrões. Ambas são padronizadas por uma elite, e são apresentadas depois de anos de treino. É necessário conhecimento de técnica para sua completa apreciação.
As técnicas corporais seriam nada mais que a capacidade do corpo de adaptar-se diante de variadas situações, criando, assim, um hábito que é passado às novas gerações; e mudando de acordo com cada povo e com cada período histórico. Quando duas ou mais técnicas se encontram em algum período da história, elas podem se fundir, levando as futuras gerações uma tradição modificada pela influência de outra sociedade e cultura. Levando em consideração as teorias de desenvolviemento humano de Gallahue e Ozmun (2001) somos resultado da nossa genética, do meio em que vivemos e das tarefas que realizamos; então se Rukmini Devi fez ballet clássico, não há como o estilo desenvolvido por ela do bharata natyam  não ter sofrido influência do ballet ocidental.
Assim, também o ocidente pode ter levado da Índia não apenas temas para seus ballets, mas também movimentos corporais; como Anna Pavlova além de resgatar o que a Europa havia esquecido, os grandes monumentos e as belas tradições das danças indianas, sofreu influência corporal em suas composições; com a ajuda de um bailarino indiano, Uday Shankar, que juntos montaram espetáculos como “Radha and Krishna” e “Hindu Wedding”; sendo um sucesso na Europa, no Estados Unidos e na própria Índia.  Pavlova foi muito aplaudida com suas coreografias “modernas indianas”.

  

Mesmo o papel do bharathanatyam nos templos tendo uma dimensão totalmente diferente do ballet nos palácios europeus (GASTON, 1996) não podemos deixar de pensar em suas semelhanças técnicas que podem ser o resultado de um “encontro” no final do século XVIII e início do século XIX.
Para Gaston (1996) a visão artística do bharata natyam sempre vai ser diversa e continuará como toda arte se adaptando e mudando.


Artigo publicado na Revista Dança Brasil/ janeiro 2012





Nenhum comentário:

Postar um comentário